| Texto Recomendado do Mês (Junho) - Parte 10 |
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Como funcionário municipal começou meu drama. Inflação e arrocho salarial. O ano de 86 começou e passei a fazer os Boletins mensais do MDPD; o primeiro ainda foi na máquina elétrica, mas depois passei a pedir ajuda de uma amiga que digitava no computador, imprimia em colunas, e eu fazia o past-up e mandava para a gráfica, no Sindicato dos Engenheiros, onde o Cândido fazia parte da diretoria, depois numa gráfica próximo da casa do Gilberto. Como já podia me movimentar melhor pensei em ir para o I Congresso Brasileiro de Deficientes Físicos e II Encontro Nacional de Entidades de Deficientes em Fortaleza, faltava saber como; não havia ido aos Encontros de Brasília e Recife em 81, agora era minha oportunidade de conhecer novas pessoas de outros lugares. Numa reunião do MDPD para escolha do representante nesse Encontro fui eleito, e lá fui eu. Minha primeira viagem sozinho. Peguei um táxi da minha casa até o terminal rodoviário do Tietê, tomei o ônibus da meia-noite para o Rio; e o ônibus ainda quebrou no caminho e tivemos que trocar de veículo, cheguei na rodoviária Novo Rio pela manhã, de táxi, maluco como ele só, fui até a base aérea do Galeão onde embarcaria no Avro da FAB para Fortaleza. Esse avião já vinha de Porto Alegre com escala em Curitiba, no Rio pegou o pessoal de lá, de São Paulo e do Espírito Santo. Correndo, fui ao banheiro, tomei um café. Embarcamos rumo à Brasília para encontrar os representantes de lá. Mais uma parada, desembarque, banheiro para os cadeirantes, e partimos para Salvador. Chegamos lá já era noite, desembarque, lanche, embarque, e última parada em Fortaleza às 23 horas. Hospedamo-nos num quartel. Banho gelado, o calor era o de abril, e descanso dos ossos. Despertar na alvorada com direito a clarim e ordem unida no páteo às 6 da madruga. Foi como se estivesse servindo o exército, mas só vendo. Rancho e embarque em ônibus para o local do Encontro. Ficávamos por lá e almoçávamos, à tarde voltamos para o quartel, banho, voltávamos para jantar, e finalmente quartel para dormir. Foi uma dureza esse vai e vem de ônibus para um marinheiro de primeira viagem e poucas movimentações. As palestras já abordavam a Constituinte, e o Encontro da ONEDEF foi muito tumultuado e com muitas brigas e discussões sobre candidatos à coordenação, que seriam candidatos a cargos eletivos nas próximas eleições, acabou gerando um consenso que coordenador da entidade não poderia ter cargo eletivo, e isso tem vencido nas eleições até hoje. Entre uma reunião e outra saída para conhecer a cidade, de carona, num carro que o Cândido alugou e que a Joana, sua mulher, dirigia. Na véspera da volta, fizemos um passeio com o Gilberto, que foi até Fortaleza em seu próprio carro. Por descuido comi um sanduíche com presunto que ficou fora da geladeira e tive a maior indisposição gástrica, e tive que agüentar a viagem de volta com calafrios de febre; novamente Salvador, Brasília, Rio, ônibus até São Paulo, e táxi para casa. Uma aventura que não esqueço até hoje. Dias de convívio e amizade com pessoas que se apelidavam e brincavam com a própria deficiência, nunca tive tantos apelidos, desde "salário mínimo" até "chaveirinho do Hulk" e "mergulhador de aquário". Mas tinha conversa sobre o movimento com o Celso Zoppi que militava na FCD de Americana, com a Rose da FCD de Campinas que foi companheira de viagem no avião da FAB, e com Cíntia já conhecida do MDPD, que havia ido em avião comercial, junto com Cândido, pois eram do Conselho Estadual de São Paulo. Dois dias depois, aconteceu o Encontro para eleição do Conselho Estadual, em São Paulo, em seu segundo mandato. Fiquei de fora para amadurecer mais. Resolvi tirar meu título de eleitor, houve o recadastramento e eu que tinha sido dispensado pois era deficiente, resolvi sair do comodismo, e mesmo com espírito anarquista tirei o título, só para votar nos novos tempos de democracia. Se o Carnaval já havia chegado em minha vida, encontrei o paraíso. Depois de alguns encontros e muitos desencontros e abandonos, um belo dia... Elza, antiga amiga desde 82, apareceu para ficar. Dois perdidos abandonados que se encontraram numa noite de junho de 86, com a lua, quarto crescente, em forma de sorriso de gato, e vivem felizes (espero) que para sempre. Nesse meio tempo, não paro a militância; o Luís Baggio convidou-me para participar com ele de um programa na rádio USP sobre deficientes. Foi mais uma festa. No começo nos divertíamos, eu fazia a pauta com o Baggio, marcava a entrevista e nos revezávamos na locução. Gravamos o primeiro programa em clima de festa mesmo. Considero um sucesso, apesar da baixa audiência da FM/USP conseguimos uma linguagem sem pieguice nem exaltação, algo meio humorístico entremeado por momentos sérios durante as entrevistas. Mas... Quis o destino que um carro atravessasse a minha frente. Voltava de um jantar com Elza, um “barbeiro” sem carta cortou minha frente com o carro quase morrendo. Dobrei o Opala dele ao meio e enfiei a cara do Fordão num poste. Levantamento dos danos... só o braço esquerdo quebrado e dois carros destruídos. Lembro bem dos momentos da colisão, cheguei a pensar que perderia a carteira de motorista, e pior, perderia o final de semana com Elza. Temi ter ferido o motorista do outro carro, mas o espertinho, como estava sem carta fugiu e não sofreu nada. Alguém telefonou e chamou os sobrinhos, que chegaram antes da ambulância. Socorrido, voltei para casa engessado para ficar uns seis meses de cama. Consultei mais de 30 médicos quando após 3 meses ficou uma indecisão parecida com a da minha perna. Pera aí, o braços não! Consegui um médico que teve coragem de fazer a cirurgia para por um pino, só assim a fratura consolidaria. No MDPD deixei de fazer o Boletim, mas sempre me informava sobre as reuniões. O amigo Arylton ajudou a fazer um levantamento de legislação para reorganizar o MDPD, conseguir os registros de utilidade pública e começar a realizar projetos para captação de recursos. Não se pretendia pedir recursos públicos, isso era consenso, mas doações que poderiam ser abatidas, naquela época, do imposto de renda de quem doasse, bastava ter esses registros de utilidade pública municipal e estadual. Constatou-se que era necessário fazer uma reforma no estatuto. Houve uma discussão interna sobre o termo filantrópico. Cândido ficou com a legislação e tudo parou nesse ano. Ficamos sem a sede por dificuldades de pagar o aluguel, apesar da realização de uma noite do queijo e vinho e bingo que foi um sucesso, e um almoço árabe promovido pela mãe da Leila, dona Maria. O MDPD conseguiu recursos para mais uns meses. O Dia Nacional de Luta desse ano foi marcado por uma passeata pela Av. Paulista com o apoio do Conselho Municipal, caminhamos e rodamos do Conjunto Nacional até o MASP. Lá fui eu, de bracinho engessado e tudo, com a Elza me empurrando. Na rádio, fazia as pautas por telefone e marcava as entrevistas também de casa mesmo, e o Baggio fazia a locução sozinho; no final do ano fizemos um programa em dupla com nossas mães, um entrevistou a mãe do outro. Foi o tempo do Plano Cruzado, nem pude aproveitar para comprar um carro novo, faltava carro. Economizei algum dinheiro, ganhei a causa pois o carro em que bati estava sendo dirigido por um empregado, sem habilitação, e sem autorização do dono, minha irmã deu-me um pouco para ajudar, mas nada de carro novo. O Plano acabou, a inflação voltou, tudo subiu e os carros reapareceram mais caros. Em 87 acabei comprando uma Caravan 78 em bom estado, e ainda tive que vender uma câmera fotográfica, reflex pela própria objetiva, um objeto do desejo comprado com muito custo. Perdi um pouco a força no braço esquerdo nas transferências para planos baixos, mas não perdi a segurança ao dirigir. Só não dá mais para sentar em qualquer carro mesmo com ajuda da prancha. Nisso tudo minha carteira provisória já estava vencendo, marquei o exame e encarei mesmo com o braço ainda em reabilitação. Fiz um exame prático pior do que os que já fizera, o carro morreu durante o percurso, quase derrubei o marcador da baliza, um horror. Mas passei e me deram carteira definitiva, que até hoje nunca tive o gostinho de mostrar para nenhum policial de trânsito. O MDPD debatia o processo constituinte e o Cândido preparou um folheto esclarecedor sobre o assunto. (Anexo 10) Voltei ao trabalho, de carro novo sentindo-me recomeçar. Viajei bastante a passeio, fui ao Rio pela Rio-Santos, visitei os parentes do meu pai dirigindo acompanhado da Elza. Passeamos ainda por Serra Negra, Lindóia e Itupeva. O MDPD conseguiu uma sede, emprestada pelo pai da Suely, uma militante desde 85, em Santana, que foi adaptada e tinha estacionamente. Voltei a fazer o Boletim e nas reuniões discutia-se novamente a reforma do estatuto que finalmente foi aceita pelo Cândido e pelo Gilberto. Suely providenciou toda a papelada, informou-se nas Secretarias de estado competentes e entregou tudo nas mãos do Cândido. Até hoje o MDPD, com toda sua história de luta por direitos, com todo o reconhecimento e vitória, na justiça contra o Metrô de São Paulo, provocando o Executivo a legislar sobre admissão de deficientes no serviço público e sobre acessibilidade em prédios públicos do Estado, não tem nenhum registro, e provavelmente perdeu até o CNPJ - Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, o antigo CGC, por falta de declaração de IR. Essas coisas deixavam-me triste, e provocavam uma debandada de pessoas animadas com as perspectivas de luta. Desde 85 quando, por resolução da coordenação, deixei de fazer o Boletim, e até hoje não sei porque, em princípio disseram que saia caro... Mas, caro um trabalho voluntário que eu apenas descontava, das mensalidades, o pequeno custo de letras adesivas, um ou outro xerox? Depois disseram-me que quem não fizesse parte da coordenação não poderia fazer o Boletim, eu não queria mais compromissos e deixei prá lá. Aquela impressão de falta de clareza nas propostas de atuação, não das propostas de direitos pois essas eram coerentes, a falta de organização interna, centralização, administração de prioridades, identidade própria do MDPD, ficou evidente para mim. Mas aconteceram muitos encontros pelo país sobre a constituinte e o MDPD esteve presente e levou propostas. Na comissão de sistematização das minorias, na qual estava o assunto portadores de deficiência havia um representante do Rio Grande do Sul, Ivo Lech, deficiente que nada pode fazer para que as propostas levantadas em encontros fosse aceita. (Anexo 11) Tivemos que apresentar uma emenda popular com 33 mil assinaturas , a maioria do MDPD de São Paulo; colocamos até mesinha no Viaduto do Chá para coletar assinaturas para a causa. Conseguimos. (Anexo 12) Todos os pontos estão em nossa Constituição, com a ressalva que uma lei regulamentará, o que ainda lutamos para acontecer, como em quase tudo. Meu final de ano (87) com Elza, foi em um Camping em Atibaia (SP), uma indicação horrível, passamos o 31 e fomos para Bragança a procura de um lugar melhor, valeu a pena, encontramos um lindo Camping a beira de uma represa, gostamos tanto que voltamos várias vezes durante o ano, chegamos a comprar e mobiliar uma barraca e passamos a ser mensalista, era uma verdadeira casa de campo, com direito à piscina e caiaque. Em 1988, estava disposto a mudar de emprego. Ganhava muito mal e já estava me sentindo desatualizado profissionalmente, completamente fora dos avanços da informática na minha área. Vinha procurando desde 86, mas parei por causa da fratura no braço, fiz apenas concursos públicos para poucas vagas, nos quais fiquei aquém da classificação; fiz também um concurso para me efetivar na Prefeitura. << Anterior Próximo >> Página 10 de 15
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