| Texto Recomendado do Mês (Junho) - Parte 07 |
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Mudanças se aproximavam, minha irmã falava em mudarmos todos para uma grande casa. Quando me formei, no final do ano resolvi fazer outro curso e me matriculei em Editoração, para completar o estudo, achei que devia conhecer como os livros são produzidos. Descobri que sobre a parte técnica podia aprender, mas sobre a parte do conteúdo dos livros só mesmo tendo outra faculdade e especialização em outra área do conhecimento. Tive sorte e consegui uma oportunidade de trabalho com uma professora de Biblioteconomia numa revista da área, como assistente editorial. Meu cunhado tirou num consórcio uma Kombi mais nova, que que ficou com meu pai, e eu procurei um motorista para ficar mais independente. Logo, o meu primeiro salário de "frila" representou auto-afirmação: pude pagar o motorista, e custear o combustível, assumi a Kombi e meu pai nunca mais precisou dirigir para mim. Fui visitar a Lourdes Guarda que morava no Hospital Matarazzo. Começou aí minha militância. No início queria convívio com os iguais para aprender e poder ajudar. Todas as teorias políticas da universidade não passaram pela minha decisão, não sei precisar de onde veio meu ideal de atuar junto aos deficientes, era uma mistura de tentar me ajudar e ajudar os outros também, uma troca. Tive um professor na faculdade que dizia que não existe altruísmo sem interesse, mesmo que seja um interesse em se sentir bem com o fato de colaborar para algo. É assim que me sinto, fazer uma ação social, ajudar um movimento de deficientes me alimenta. Hoje sei que isso é fruto de uma vivência da minha geração que recebeu muitos estímulos diretos e indiretos de acreditar em transformações do mundo, em saber fazer acontecer, idealismo e combatividade, mas no início da minha militância era só convívio, colaborar e me sentir bem, mas no fundo acabava fazendo algo para mim mesmo. Fui à minha primeira reunião da FCD - Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes, em dezembro de 1979, já com meu motorista, um taxista contratado para serviço duas vezes por semana. Já havia convivido com deficientes na AACD, mas nunca tinha visto tantos deficientes juntos em uma só reunião, gente simples e alegre, brincavam com a deficiência, como às vezes eu também brincava em família, chamavam-se de cadeirantes, muletantes, chumbados (depois fui saber que tinha dupla conotação, o ferro dos aparelhos e cadeiras e o chumbo mesmo, de tiros, provocados por assaltos ou por policiais havia alguns ex-detentos) No ano seguinte fui a uma reunião do núcleo do centro, da FCD. Um mês depois a Lourdes me convidou para a reunião de um movimento que começava em São Paulo; discutia-se as condições dos portadores de deficiência e se preparavam para o ano seguinte, que seria o Ano Internacional das Pessoas Deficientes. São Paulo - 1979 Reunião preparatória do Ano Internacional das Pessoas Deficientes Fiquei no grupo de comunicação e em seguida já estava na coordenação geral. Tínhamos reuniões mensais e discutíamos muito a redação de uma carta programa e como preparar atividades para o Ano Internacional. No começo, minha militância se resumia a ouvir muito e falar pouco, queria aprender, notava diferenças de opinião mas não ligava isso com tudo que aprendi na faculdade sobre política, sociologia, ideologia, etc. Achava que aquelas coisas não poderiam existir em um movimento de deficientes, só em atividades político partidárias. Quanta ingenuidade e ignorância! Acreditava que minha atividade de reivindicar melhores condições de vida e direitos para os deficientes deveria ser encarada como plantar uma semente para que gerações futuras viessem colher, não queria resultados imediatos, esperava, isso sim, progressos nas atividades do movimento. Aproveitando as atividades escolares, produzi um folheto com informações sobre o Símbolo Internacional de Acesso. Romeu, um integrante da coordenadoria produziu os originais e eu fiz a revisão, datilografia e todo o processo gráfico. Este foi meu primeiro trabalho prático em Editoração. Inexperiente, nem pensei em registrar os créditos, mas guardei alguns exemplares. Na verdade Romeu e Otto trouxeram muito material informativo e formativo para nosso movimento, como por exemplo a Carta para a Década de Oitenta, da Rehabilitation International. Nesse tempo, nem sei onde consegui coragem. Fui a vários locais, com meu currículo de recém-formado, procurar emprego de bibliotecário; empresas que nunca tinham ouvido falar em bibliotecário pois a secretária mesmo arrumava seus documentos, foi pura ingenuidade minha. Esbarrei em alguns problemas pela deficiência, num local não pude ficar, mesmo bem recomendado pelos professores pois era local com normas rígidas de segurança e me disseram que com cadeira de rodas iria dificultar a operação de evacuação do prédio em caso de acidente, em outro o professor que me entrevistou perguntou como eu colocaria um livro numa prateleira alta. Encaminhei meu currículo para diversos locais e acabei sendo contratado pela Prefeitura de São Paulo e fui trabalhar numa Biblioteca Pública em Santo Amaro. Deixei a revista e comecei meu primeiro emprego fixo em dezembro de 1980, quase um ano depois de formado. Havíamos mudado para o Itaim, morávamos nos fundos da casa de minha irmã, duas suites, uma para meus país e uma para mim. Nossa casa tinha sido comprada pelo meu cunhado, que pagou anos de atraso da hipoteca que meu pai não pagava, depois vendeu. Meu pai continuava sua vida de nômade, um dia em casa e três fora. Todos falavam que tinha outra casa, etc.. Minha mãe queria a separação e eu apoiava mesmo não acreditando que pudesse ter alguém que agüentasse o gênio dele. O que teve para me ensinar foi logo na infância, não roubar, não mentir, cuidar bem dos animais; depois de velho ficou muito diferente nos hábitos, era racista, apesar de descendente de negros e índios, tratava mal as pessoas mais humildes e badalava quem pudesse lhe fazer um favor; aprendi bons exemplos para um jovem não seguir, tudo é lição de vida. Como tinha que sair todos os dias para o trabalho, tive que propor um salário para o motorista, mais o gasto com combustível e o consórcio que passei a pagar, meu salário era quase igual às despesas. Durante o ano de 80 as primeiras reuniões foram no Colégio Imaculada Conceição, depois o movimento se reunia uma vez por mês, no sábado, na FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas, da Avenida Santo Amaro, onde o Evaldo dava aulas de história, e no Colégio Anchietanum, onde os jesuítas fazem seus estudos preparatórios. Em janeiro houve, em Brasília, uma reunião de lideranças de vários estados, promovida já pela Coalizão Nacional, com o objetivo de definir os caminhos do movimento nacional. Realizamos, em agosto aqui em São Paulo, um Encontro preparatório para o grande evento que estava marcado para Brasília. Muito esforço foi dispendido com preparação e discussões para o grande Encontro Nacional de Pessoas Deficientes, que aconteceu em Brasília, foi um marco histórico para nossa causa. (Anexo 3) Naquela época, apesar da melhor movimentação em casa, só ficava em minha cadeira e andava em minha Kombi; não permitia que ninguém me carregasse, perdi muitas oportunidades por medo de me machucar novamente e voltar a ficar em casa engessado, fora do mundo; antes, pouca vivência, que nenhuma. Quem sabe um dia... “Vou me guardando para quando o carnaval chegar” vivia repetindo pra mim mesmo. O governo federal havia criado no início do ano uma Comissão Nacional para o AIPD - Ano Internacional das Pessoas Deficientes. Ficamos discutindo, junto com a Coalizão Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, reivindicando a indicação de uma pessoa deficiente para a coordenação do Ano Internacional. Eu já se notava algum problema ideológico? Até hoje, dos vários coordenadores que ocuparam o cargo do que viria a se institucionalizar como CORDE - Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Deficiente, órgão vinculado, agora, ao Ministério da Justiça, nenhum deles portador de deficiência. Brasília - DF, 13 de janeiro de 1980 Reunião de lideranças do movimento de deficientes, de vários estados São Paulo - SP, 9 e 10 de agosto de 1980 Encontro Nacional de Pessoas de Deficientes, organizado pela Coalizão Pró-Federação Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, composto por 25 entidades de 10 estados Brasília - DF, 18 a 22 de outubro de 1980 I Encontro Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, com aproximadamente mil participantes São Paulo - SP 5 de abril de 1980 Reunião de Entidades de Pessoas Deficientes, no Colégio Anchietanum São Paulo - SP 10 de maio de 1980 << Anterior Próximo >> Página 7 de 15
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