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Instituto MID - Para a participação social das pessoas com deficiência Parte 06 - Page 6
Texto Recomendado do Mês (Junho)
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    Lourdes, Lu para os mais íntimos, era uma figura marcante, nunca a ouvi contar espontaneamente sobre sua deficiência. Para ela tudo estava sempre bem, só pensava no bem-estar de outros deficientes. Vivia numa cama do antigo Hospital Matarazzo, só deitada, para sair ia de Kombi numa maca com rodinhas especialmente construída para ela, e viajou o Brasil quase inteiro fundando núcleos da FCD - Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes.
    Com o passar do tempo e o convívio se percebe que os deficientes sempre têm uma história de como ficaram deficientes, principalmente os que adquiriram a deficiência após alguns anos de “normal”. Isso às vezes é até uma bandeira de luta, uma tragédia “superada”, uma marca que não deixa ser esquecida pelos outros companheiros. “Meu acidente!” “Aquele tiro!” “O ônibus que veio e...!” “A sobrevivência!”. Lourdes não, ela era só vida. Simples e enérgica com quem podia ser enérgica, doce e compreensiva com todos, paciente, sempre paciente, e sempre conciliadora. Amiga e despreendida de valores materiais, rica em ideal, lutadora por melhores condições para qualquer deficiente. Alguns mais “politizados” ou partidarizados, eu diria, a acusavam de assistencialista. “Rui, se batem na porta do meu quarto e me pedem para ajudar marcar uma consulta, eu vou dizer que não?” “E se me pedem ajuda para um aparelho de surdez ou uma cadeira de rodas, vou deixar sem?” “Se esse Estado que está aí não dá, eu dou um jeito.” Nunca pediu nada para ela, e sempre ganhou o que precisava para suas necessidades.

    O convívio com deficientes me fez querer conhecer mais pessoas e ajudá-las de alguma forma a resolver seus problemas e procurar saídas para os meus, no início foi só isso.
No final do ano, criei coragem e resolvi cobrar uma atitude de meus pais, algo que nunca tinha tido coragem de fazer, mas sabia que de outra forma não ia resolver nada então foi: não pedi para nascer assim, então vocês vão ter que fazer algo por mim. Foi com todas as letras, alto e em bom som. Tudo dependia de meu pai concordar em me levar para o cursinho; também ficou claro que não tinham recursos e que se eu fosse para a faculdade não poderiam pagar. Tudo bem, eu me viro.

    Fui um dia para o prédio do Objetivo, na avenida Paulista, passei a tarde lá tentando falar com um funcionário, que aquele médico, com o qual briguei por ter quebrado minha perna, havia me indicado anos antes para procurar e ganhar uma bolsa. Ganhei.
    No primeiro dia de aula descobri que minha sala tinha alguns degraus para subir. Meu pai deixou-me na garagem do Objetivo e minha mãe subiu de elevador comigo. Estava naquele saguão com gente saindo de todos os lados e descendo escadas, milhares de pessoas. Senti como se tivesse saindo da prisão após 4 anos, sem convívio escolar. Tentei mudar de classe mas não houve jeito. Falei para minha mãe ir embora e dizer para meu pai vir me buscar na saída. Parei na escada após todos entrarem e fiz cara de “me sobe”; os dois bedéis que ficavam na porta me perguntaram se queria subir... Nunca mais deixei de subir uma escada.
    Foi uma luta. Meu pai não contava com isso e tentou de tudo para eu desistir. Um dia deixou-me em casa, mas não tive dúvidas, contratei uma Kombi de transporte e fui com minha avó, ela ficou no hospital onde minha mãe estava operada e eu fui para o cursinho. Na volta o motorista a pegou e depois a mim. Chegando em casa, meu pai estava lá, louco de bravo e preocupação, nunca mais me deixou. Na verdade nunca falou nada diretamente para mim, sempre soube por terceiros, mas dizia que não ganhava a vida, mesmo já aposentado, por minha causa, e eu segurava minha culpa e revolta em nome da meta de terminar a faculdade e ganhar a independência.

    Durante o cursinho já houve uma transformação em minha visão de mundo com as aulas de História e Literatura. No dia do assassinato do Herzog foi um choque, tinha uma colega cujo marido trabalhava com ele na Cultura, e também acabei sabendo que o Markun, um colega de clássico, também esteve em perigo. Se faltava algo para entender o estado das coisas no país descobri nesse dia.
    O ano de 1975 fazendo cursinho, comecei a sentir culpa por meu pai estar me levando com sacrifício, foi muito duro. Dediquei-me ao estudo com todas as forças, deixei a vida pessoal para depois. Mas consegui entrar na ECA, como queria e no período que escolhi.

    Surpreendi a família e me surpreendi depois. Tive que fazer uma releitura de meus conhecimentos de História, Literatura, Lingüística, modo de estudar e aprender, tudo do zero,  tudo isso já no primeiro semestre. Outra festa, clima agitado, muita novidade, pessoas inteligentes, professores que falavam tudo, respondiam tudo, livros que contavam sobre o regime que estávamos passando; tive que reaprender a “ler” a vida. Alguns colegas interpretavam minhas perguntas de puro desconhecimento como provocações e chegaram a me chamar de reacionário (até fui ao dicionário procurar o significado), mas outros explicavam até didaticamente minhas inquietações. Foi assim que entrei para o mundo. Mais fácil foi entender os mecanismos da indústria cultural e as ligações com propaganda, publicidade e criação de mitos. Descobir Lingüística e Semiótica foi uma beleza para a “leitura” do mundo. Já fazia progressos no segundo semestre. Nunca fui doutrinado em nada, portanto sempre estive aberto aos novos conhecimentos, adoro publicidade e propaganda, mas sei interpretar e não me deixo seduzir pelo consumismo, sou capaz de entrar num Shopping ou num Supermercado e não comprar nada, só vejo as novidades.

    Logo no dia da matrícula senti novamente as barreiras arquitetônicas, escadas para o primeiro andar e escadas para o anfiteatro onde aconteciam as aulas do primeiro semestre básico. Por ingenuidade e desconhecimento ainda procurei outra faculdade mais acessível no campus. Pensei, voltei e encarei.
    A dificuldade com a família continuava, meu pai sempre reclamando apesar de mostrar o filho que entrou na USP para os amigos, os outros familiares com aquelas palavras de conformação: “é bom estudar, né, distrai”.
    Minha opção era Rádio e TV Educativa, mas ao fazer um trabalho sobre o assunto no primeiro semestre, li muito sobre educação e me desencantei com a característica motivacional da educação por esses veículos. Comecei a pensar em Biblioteconomia, o conceito de Educação “lato sensu” toma forma mais libertária, o profissional bibliotecário coleta, organiza e dissemina a informação (base da educação) para todas as pessoas e coloca à disposição sem impor. No terceiro ano optei por Biblioteconomia.

    No segundo ano, uma colega de sala se aproximou de mim e seriamente perguntou-me o que eu pretendia cursar e por que, expliquei normalmente como já fizera em outras ocasiões com minha família, para os quais estudar seria muito bom para mim pois distraia.
    Em minha reciclagem de vida um texto de Marx foi vital tanto para entender vários conceitos como para me posicionar para o futuro, e uma frase em especial serviu de fio condutor para mim: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”.
    Aprendi muito com professores, colegas, livros, movimento estudantil, textos proibidos que recebíamos mimeografados ou xerocados de livros portugueses ou espanhóis. Minha cabeça fervilhava mas meu corpo não podia acompanhar, não saia da faculdade, enquanto os colegas iam para o cinema, teatro, eu ficava na Biblioteca ou conversava com quem ficava. Minha vida era de casa para a faculdade e da faculdade para casa, uma vez ou outra ia ao cinema do shopping Iguatemi, o mais acessível para mim, e mesmo assim quando o filme era razoavelmente bom o que nem sempre era possível; filmes bons quando passavam eram em outros cinemas.

    Meus amigos de ginásio tinham terminado seus cursos superiores, casados, alguns já eram pais e estavam afastados, só nos falávamos por telefone algumas vezes, outros perdi contato completamente, até dona Idália estava meio distante; sentia-me meio estranho no ninho. Os mais velhos da classe não pensavam nem agiam como eu, os mais novos me achavam velho, tinha 25 anos mas pouca vivência e formação educacional deficitária, em plena fase de atualização. Mas fui ganhando poucas amizades que ficaram até os dias de hoje.
    No terceiro ano comecei a sentir as dificuldades novamente pois o curso de Biblioteconomia era no segundo andar. Resolvi que não correria mais riscos de subir escadas e às vezes enfrentar mau humor de funcionários indispostos e também ouvir que não recebiam salário para fazer força. Solicitei ao encarregado dos alunos uma sala embaixo, ele me deixou falando sozinho e subiu as escadas. Pedi audiência com o diretor (Prof. Ferri) com hora marcada. Cheguei pela manhã e fui preparado para ficar o dia todo na Biblioteca estudando. Na hora marcada, 9 da manhã, não fui atendido, esperei por duas horas em sua ante-sala, depois fiquei pelos corredores, não desci para a Biblioteca com medo de ser chamado e não estar lá. Tomei meu lanche na hora do almoço numa sala vazia. Voltei para a ante-sala. Acho que sou calmo. Alguns anos depois fui entender que isso foi um gesto de discriminação e preconceito, não foi mais um dos descasos administrativos de funcionários públicos. Creio que por algum mau- estar da secretária com minha presença desde manhã ela interferiu e o diretor acabou me atendendo às 16 horas. Fui rápido e me desculpei por tomar seu tempo para um assunto tão simples que seu assessor já poderia ter resolvido.

    Fiz o curso no térreo; mas ainda tive alguns contratempos com as colegas que subiram para o primeiro andar quando cheguei alguns minutos atrasado, mas foi só uma vez, e professores que no início reclamaram do local. Logo a sala foi pintada e as carteiras velhas trocadas. Senti que o espaço ficou definitivo, pelo menos enquanto estudei. Hoje em dia, não sei como a ECA receberia um aluno deficiente para fazer Biblioteconomia.
    Estes acontecimentos ganharam significado para mim somente quando comecei minha militância no movimento de deficientes. Durante os anos de universidade não tinha conhecidos com deficiência nem convívio com eles. Somente me correspondia com Lourdes Guarda.
    Foi nesse ano, 1978, que após uma torção no joelho da perna direita e perder um mês de aulas, acabei amputando a perna direita aqui em São Paulo mesmo, e em uma semana já estava de volta às aulas. Claro que os olhares mudaram, mas minha movimentação ficou muito melhor; ainda não me deixava ser carregado, apesar da facilidade, pois tinha muitas contrações musculares, que demoraram um pouco para serem controladas com medicação, que aliás, tenho que tomar até hoje. Sentia-me mais “apresentável” sem as duas pernas do que com uma perna só, pelo menos meus sobrinhos não me chamavam mais de saci-pererê, mas todas as crianças ainda olham embaixo da cadeira procurando as pernas; acaba sendo divertido.
    A identidade como portador de uma deficiência, a imagem do diferente consolidava-se em minha cabeça.
    Procurei me aplicar bem nas técnicas de Biblioteconomia, fiz estágio na própria biblioteca da ECA mesmo não existindo até então, esta possibilidade. Convenci a diretora da biblioteca permitir que eu conhecesse todos os serviços; foi a minha oportunidade, minhas colegas já trabalhavam em bibliotecas, e nosso curso não exigia estágio. Durante o curso percebi que no futuro o bibliotecário teria que acabar se especializando em uma área do conhecimento e optei por procurar a área biomédica pela minha antiga preferência por Biologia.
    Minha avó faleceu no meio do ano de 79; meu avô já havia falecido, passando por um processo doloroso de 50 dias, em 77, imobilizado numa cama, em casa, deixando minha avó e minha mãe muito abatidas. A morte não me assusta tanto, tenho medo da dor e de ver pessoas sentindo dor, mesmo dor emocional.
 
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Notícias

Símbolos para deficiências na trajetória inclusiva

por Romeu Kazumi Sassaki

Artigo publicado na revista Reação, São Paulo, n. 66, jan./fev. 2009.

“Com sua diversidade, os signos, símbolos, logotipos e sinais representam a expressão de nossa época, que tudo permeia e marca, e são capazes de indicar o futuro, uma vez que mantêm e conservam o passado.” – Adrian Frutiger.

Como outros segmentos da população em geral, o das pessoas com deficiência tem se utilizado também de signos, emblemas, símbolos, logotipos, logomarcas e sinais a fim de comunicar - de maneira visual, sucinta e inequívoca - certas idéias para o público. A prática da transmissão de idéias através de imagens é tão antiga quanto a história da humanidade. Esta prática necessariamente
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RESILIÊNCIA

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Há mais de quarenta anos, a ciência tem-se interrogado sobre o fato de que certas pessoas têm a capacidade de superar as piores situações, enquanto outras ficam presas nas malhas da infelicidade e da angústia que se abateram sobre elas como numa rede engodada. Por que certos indivíduos são capazes de se levantar após um grande trauma e outros permanecem no chamado fundo do poço, incapazes de, mesmo sabendo não ter mais forças para cavar, subir tomando como apoio as paredes desse poço e continuar seu caminho?

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O ensino da filosofia e da sociologia: Contribuição para a inclusão escolar

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