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Instituto MID - Para a participação social das pessoas com deficiência Parte 04 - Page 4
Texto Recomendado do Mês (Junho)
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Juventude

    Novamente férias em Miguel Pereira, desta vez tinha preocupações maiores com profissão, e o que fazer após o ginásio. Ficamos pouco tempo, o primo Kiko veio para São Paulo morar com a gente e estudar.
    Fiz exames de seleção para o clássico, normal e científico. Tentei um curso técnico em Eletrônica, era o que gostava bastante e ganhei meia bolsa. Meu teste vocacional era vago e dizia que podia fazer qualquer área. Tinha interesses por Biologia, Eletrônica e já havia escolhido ser professor, apenas professor de segundo grau. Aprender sempre e passar para os alunos o máximo possível, esse era meu ideal, meu lema.
Meu teste vocacional também apontou um traço psicológico, que mais tarde ajudou-me a compreender melhor minhas relações afetivas, tanto com meus pais como com o sexo oposto.

    Acabei fazendo o curso clássico. Já nessa época a repressão da ditadura se fazia notar no comportamento dos professores. Alguns nem tocavam no assunto e outros evitavam; isso me deixava furioso, queria saber e não tinha as informações, não tinha uma convivência muito rica de conhecidos, minhas informações vinham em sua maioria de jornais, revistas, rádio e TV, já com todas as distorções. Vivíamos o ano de 68 e veio o AI-5, então as bocas se calaram mais ainda.
    Como leitor, não percebia a censura. Comecei a assinar a revista Veja mas não tinha muito com quem conversar, nem tinha consciência política formada. Minha referência era meu avô "ademarista" e meu tio "janista", as discussões de fim de semana à mesa do almoço giravam em torno do "rouba mas faz" e na desconfiança generalizada em relação aos políticos. Tinha 18 anos e era “formado” pelos meios de comunicação. Os festivais de música tinham mexido um pouco comigo, mas era alienado e despolitizado. Uma vizinha, dona Idália, que era professora e muito amiga, tinha um irmão militar e às vezes tocava no assunto com reticências.

    No colégio, senti alguma dificuldade, ou devo dizer preconceito. O clássico era no período da manhã e da noite. Dona Idália, recomendou que eu fizesse pela manhã, pois era melhor; mas o diretor não aceitou colocar a sala no térreo. Fui para o período noturno, aliás estudei o ginásio todo à noite, já era meio notívago, ficava até de madrugada assistindo TV e escutando rádio em ondas curtas.
    Em minha classe, todos trabalhavam durante o dia e iam para escola à noite. Sempre trabalharam e estudaram; meu amigo Pavanelli estava na mesma classe. O único que não trabalhava era eu.

    Com meu primo morando conosco, a roda de amigos aumentou em quantidade; a dificuldade que ele tinha nos estudos era compensada em simpatia e sedução; várias meninas apaixonadas por ele. Durante o dia todos ficavam no meu quarto de estudo, fumando cigarro, apenas cigarro comum, ouvindo jovem guarda e música americana sem entender a letra. He! turminha “alienada”, frutos de uma classe média baixa.
    Entrei nesse ritmo por seis longos meses. Para mudar um pouco, procurei um curso de Eletrônica, encontramos um professor alemão, engenheiro eletrônico, ex-combatente na primeira guerra, que aceitou dar aulas em minha casa. Minha mãe ia buscá-lo e levá-lo de carro. Era uma festa, histórias de guerra e Eletrônica. Aprendi muito, desmontava rádios, gravadores e Tvs. Com um colega que fazia curso de Eletrônica montamos um retransmissor, que operava na faixa de AM e entrava em cima de rádios comerciais. Por um tempo interferi nos rádios do quarteirão. Fui de uma rádio pirata e nem sabia disso.

    Saía muito de casa, passeava, ia a cinema, teatro, festas, mas além da solidão afetiva, incomodava-me a indefinição quanto ao meu futuro. Volto a andar ou vou ficar na cadeira de rodas? Foi nesse ano que pela primeira vez pensei em amputar a perna. Todo mês ia ao médico tirava raio-X ficava esperando a perna consolidar e nada. Já conhecia bastante meu corpo para saber que minha perna não ficaria boa novamente como em outras fraturas, afinal foram 3 anos. Quando falei em amputação com o médico ele quase se sentiu agredido. “Nem fale nisso, você tem uma perna, onde já se viu cortar uma perna?” Mas uma perna que não funciona, tentava argumentar. Nascia a busca pela definição de vida.
    No meio do ano meu primo voltou para o Rio e minha vida mudou, os colegas do tempo de meu primo se foram quase todos, conseguia estudar mais no colégio, mas minhas aulas de Eletrônica pararam, o professor não pode dar continuidade.

    No final desse ano o médico que cuidava de minha perna esquerda disse que já tinha feito de tudo e me encaminhou para o HC - Hospital das Clínicas. Ficou nas mãos de meu pai o encaminhamento. Em 1969, logo no princípio do ano tentamos o atendimento, fiquei um mês indo pelo menos uma vez por semana e esperando, horas e horas, deitado em uma maca, ouvindo gritos de dor e vendo cenas de deficiências. Foi meu primeiro ensaio para o mundo no qual viveria.

    Desculpe leitor, não é nenhum conto de terror.
    Depois de um mês fui atendido e me deram um “laudo”, devolvendo para o médico que mandou, no mesmo papel do encaminhamento, dizendo que nada poderiam fazer em relação ao meu caso. Por insistência do meu pai, mandaram-me fazer uma aparelho para proteger a perna esquerda.
    Como manda o regulamento da oficina, fui para a fisioterapia, e assim fiquei fazendo fisioterapia duas vezes por semana durante mais de um ano. Caminhei, é verdade, mas com muita dificuldade e com aparelho e duas muletas axiais, mas só nas horas de exercício; chegava em casa tirava o pesado aparelho e colocava a goteira.

    O clima político no país era tenso, um embaixador fora seqüestrado, um guerrilheiro urbano, Marighella foi morto, mas no colégio isso nem era comentado.
    Ainda em 69, voltei a procurar o médico que me colocou andando com 5 anos, ele já não clinicava mais, mas me atendeu e passou o caso para seu filho.

    Foi quando o jovem médico me disse: “Não queria estar na sua pele, mas você só tem uma saída, é andar cair quebrar, tornar a andar cair e quebrar; mas se você não se movimentar seus ossos desaparecem e você fica só com os músculos.” Minha sentença aos 19 anos.
    Saí do consultório sem saber o que fazer ou pensar. A noite, na escola, chorei no ombro de uma colega.
    Continuei com a fisioterapia para ficar mais forte e me submeter a cirurgia de reconstrução de meu fêmur esquerdo para voltar a andar. Não estava convencido do acerto da decisão do jovem médico, mas tinha medo de tomar outra iniciativa.

    Em 70, alguns alunos da turma da manhã vieram para o noturno, pois faziam cursinho no outro período, alguns eram politizados, vinham de classe média alta e seus pais eram professores ou industriais; formou-se uma “casta” em nossa classe trabalhadora e despolitizada, ou melhor, politizada pela ideologia dominante. Mas eu nem entendia isso, só sentia a diferença que alguns professores faziam ao conversar em código com esses alunos dos cursinhos particulares. Vieram também os de famílias médias e sem muito engajamento, queriam somente o diploma. Vivíamos o clima de tricampeões e crescimento do país. As vezes, os jornais publicavam uma página inteira com fotos de guerrilheiros procurados.

    O HC, me liberou no meio do ano; esperei terminar o curso e prestei vestibular sem fazer cursinho, isolei-me em Campos do Jordão, na casa da minha irmã, estudei muito, mas, claro, não passei pois estudei errado.
    No início de 71, voltei ao ortopedista, aí ele achou outro problema em um raio X de perna direita. Mas neste período, as crises de esôfago deixavam-me três dias no soro, sem alimentação e sem fisioterapia. Então ele recomendou um médico gastroenterologista. Comecei a fazer dilatações a cada 3 ou 6 meses, em casa por “recomendação” do médico; o que  provocou sangramento em uma úlcera no esôfago,  eu perdia sangue nas fezes e fiquei anêmico; passava noites acordado para tomar remédio contra a acidez do estômago; isso durou anos. Fiz vários exames e fui internado às pressas, tomei sangue por três dias para poder operar o estômago, pela primeira vez. Não senti medo da morte. Operei e fiquei 35 dias no hospital, com alimentação parenteral, até fortalecer e fazer uma nova cirurgia. A segunda foi mais tranqüíla, já conhecia a gostosa sensação da anestesia geral. Nada de dor, nada de ter que acordar para tomar remédios, senti até medo morrer; só pensava em sair dali e comer feijoada, o vatapá da minha mãe, tomar café com leite e pão quente, há!

Mais 20 dias de hospital e estava novo. No meio do ano já estava bom e voltei a estudar. Desta vez, fui para o cursinho, com meia bolsa de estudos que minha avó pagava.
    Voltava de uma aula dominical e numa freada brusca lá se vai meu punho e minha perna direita, que era a melhor que eu tinha. Fraturas!
    Começar de novo... Pronto Socorro...
    Depois de engessado; nem é bom lembrar como doeu, tive uma reação de revolta que dias depois me assustou. Não sou assim. Foi a primeira e última vez; reclamo da dor, tenho medo da dor, mas não me revolto contra a vida. Nem tem sentido. A vida está aí para ser vivida, de qualquer forma tenho que tirar proveito dela e deixar minha marca em algo que fizer. No mais, nem sei se não tenho coragem ou se é vergonha de tentar a fuga na morte e não acertar.

    Voltei ao médico, que era de confiança. Anestesiou-me, quebrou minha perna em mais dois lugares, alegando que era para corrigir a postura do meu pé, voltei para casa com três fraturas para consolidar.
    Meses depois, tiro o gesso e as fraturas não estavam consolidadas, questiono o médico sobre as fratura que ele havia feito não estarem consolidadas, e tenho a infelicidade de presenciar o seu ataque de “autoridade médica”, aos berros disse-me que se eu confiasse nele que procurasse outro médico para consertar minha perna. Atirou o prontuário em cima de mim, saiu e bateu a porta. Voltei para casa sem médico, sem lenço nem documento.
    Dessa vez fiquei em “prisão domiciliar” de 71 a 73.
    Com as duas pernas quebradas e mal consolidadas. Minha cadeira de rodas foi improvisada com um suporte de madeira e duas rodinhas na frente, para me movimentar dentro de casa, tudo bem, mas sair não dava, não podia ser carregado com as pernas nas goteiras.
Hoje vendo o exemplo de crianças da ABOI - Associação Brasileira de Osteogenesis Imperfecta, vejo que deixei de ir à escola em diversos períodos da minha vida, quando ficava engessado, pôr falta de pensar numa adaptação possível, numa cadeira de rodas adaptada, numa maca com rodas, sei lá o quê. Quando estava engessado, só ficava em casa.
    Acompanhei pelos jornais a guerrilha no Vale do Ribeira e a morte de Lamarca na Bahia, mas só anos mais tarde fui ligar os fatos à vida política do país. Para mim eram fatos e fotos das páginas policiais e não acontecimentos políticos com conotações ideológicas.
 
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Notícias

Símbolos para deficiências na trajetória inclusiva

por Romeu Kazumi Sassaki

Artigo publicado na revista Reação, São Paulo, n. 66, jan./fev. 2009.

“Com sua diversidade, os signos, símbolos, logotipos e sinais representam a expressão de nossa época, que tudo permeia e marca, e são capazes de indicar o futuro, uma vez que mantêm e conservam o passado.” – Adrian Frutiger.

Como outros segmentos da população em geral, o das pessoas com deficiência tem se utilizado também de signos, emblemas, símbolos, logotipos, logomarcas e sinais a fim de comunicar - de maneira visual, sucinta e inequívoca - certas idéias para o público. A prática da transmissão de idéias através de imagens é tão antiga quanto a história da humanidade. Esta prática necessariamente
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