| Texto Recomendado do Mês (Junho) - Parte 11 |
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Diversifiquei meus interesses que sempre foram muito amplos, com Elza fiz um curso de Astronomia para principiantes e fundamos, com um grupo de amigos, o CASP - Clube de Astrônomos Amadores de São Paulo. Tivemos várias noitadas de observação do céu, em áreas distantes de São Paulo. Algumas viagens foram perigosas, na ida pela estrada e na volta pelo cansaço da noite não dormida e tendo que dirigir. Mas foram tempos divertidos, mas hoje penso duas mil vezes em fazer algo parecido. Ainda temos um mapa celeste que fica guardado numa divisão da nossa mala de viagem, sempre que possível não perdemos a oportunidade de tentar reconhecer algumas constelações. Continuava freqüentando as reuniões do MDPD e fui eleito para representar São Paulo no Encontro da ONEDEF em Manaus (AM). Conversando com a Lourdes sobre quem iria da FCD ela me disse que era o Celso em vôo da FAB, dessa vez eu era indicado para viajar com passagem em avião comercial; Cíntia também iria pelo Conselho Estadual em outro vôo junto com o Luiz, Conselheiro por Taubaté. Lourdes manifestou um pouco de descontentamento com a falta de informação e a aparência de que a ONEDEF não produzia nada de concreto. Falei meio num rompante: "se você apoiar me lanço candidato". Não deu outra. Ela topou e logo montamos a chapa, Cíntia conversou com Luiz e eu conversei com a Christina, que acabava de chegar do Canadá, onde havia trabalhado na DPI - Disabled People’s International como tradutora de projetos de captação de recursos. Lourdes falou com o Celso e ela aceitou participar da chapa mesmo não podendo ir, assim como a Christina. Não faltaram os contratempos de costume, em eventos deste tipo, passagem não liberada no aeroporto em cima da hora do embarque, troca por outra companhia, problemas de preço a mais para resolver em Manaus, mas tudo acabou dando certo. Lá fui eu voando entrando era do jato. Cheguei a Manaus candidato e com chapa quase montada e ainda com o apoio do Carlos Burle, velho militante do Rio Grande do Sul que além de nos apoiar, fez todos os contatos com as bases. Fui eleito coordenador, o Celso como vice, a Cíntia e a Lourdes como secretárias e a Christina e o Luiz como tesoureiros. A assembléia foi muito tumultuada e a prestação de contas não foi aceita pelo Conselho Fiscal, mas na plenária tudo foi apaziguado. Na verdade ninguém queria pegar uma coordenação endividada, fomos eleitos, mesmo sem dois componentes da chapa estarem presentes, por unanimidade com alguns votos em branco. Na volta, fizemos uma reunião no quarto da Lourdes e traçamos algumas coordenadas, primeiro tínhamos que resolver as dívidas, e infelizmente tivemos que optar pelo corte do gerador de dívidas, o jornal Etapa, sua edição e distribuição eram muito caras , inclusive porque as entidades membros da ONEDEF, recebiam um "pacotão" e preferiam distribuir seus próprios jornais, boletins ou circulares, quando muito reproduziam em seus informativo uma ou outra notícia, e o restante ficava lá empilhado; acontecia isso aqui em São Paulo com o MDPD e com a FCD. Priorizamos também a regularização do livro de atas e o registro no Conselho Nacional de Serviço Social, era obrigação estatutária e ainda não tinha sido possível realizar. Em curto prazo tentamos fazer, aqui em São Paulo, uma reunião do CRE - Conselho de Representantes Estaduais, e manter contato mensal por meio de circular com todas as entidades membros, procuramos recursos para o mínimo de estrutura. Logo começaram as viagens, primeiro fomos ao Rio conhecer a coordenadora da CORDE, numa aproximação do companheiro Blanco, já que a antiga coordenação andou com relacionamento meio estremecido. Lá fui eu, Cíntia e Celso; viagem de avião pela manhã e volta à noite. Esperamos horas a fio para sermos atendidos, uma velha tática de enfraquecer o interlocutor, para mim uma tremenda falta de educação, aprendi quando criança. Era assim que me sentia sendo tratado pelos “do poder”, e não adiantavam todas as mesuras. Mas seguramos o desconforto e mudamos o tratamento, agora era uma nova coordenação, outros interlocutores e sem agressões, queríamos paz e realizações concretas, sem jogos politiqueiros para mostrar ser do contra para a platéia. Um dia de trabalho, no qual justifiquei a falta e ainda fui descontado, mas a causa foi atendida. Mais um mês, lá vou eu para Brasília na reunião do Conselho Consultivo da CORDE. Cheguei pela manhã e fiquei no hotel para a reunião na manhã seguinte. Consegui juntar duas folgas no trabalho, para poder fazer alguns contatos no Congresso com o representante dos deficientes na comissão de sistematização da Constituinte. Telefonei para todo mundo conhecido e não consegui um carro para sair. Observei da janela a cavalgada da UDR pela Esplanada dos Ministérios. Como estava sem dinheiro nem táxi pude tentar pegar. Foi muito frustrante. O pessoal do MDPD, logo que cheguei de volta de Manaus, disse que queria conversar sobre ONEDEF, mas foi passando o tempo e nada de conversa, nada de apoio, parecia que não existia ONEDEF, da qual eles foram membros fundadores, aliás mais do que eu, pois estavam no Encontro de São Bernardo em 83, e eu não. Também não pedi nada, afinal já tinha bastante conhecimento e os companheiros da coordenação mereciam mais respeito e consideração pelas suas histórias. Continuei indo às reuniões mensais e festividades de fim de ano, opinava e dava notícias da ONEDEF. Se não bastasse a ONEDEF, acabei aceitando ser conselheiro do Conselho Estadual, mais um compromisso mensal pelo menos. Sempre fui contra participar de Conselhos, acredito no caminho democrático de diálogo com o governo, mas para mim prefiro a participação nas entidades de reivindicação; só aceitei para facilitar a função de coordenador da ONEDEF. Aproveitei a oportunidade do dia Nacional de Luta, propus e foi aceito um seminário sobre a imagem do deficiente nos meios de comunicações. Fiquei sozinho para realizar o evento, tentei contactar todos os veículos, mas acho que não falei com as pessoas certas, apenas o Boris Casoy compareceu ao evento, realizado na Assembléia Legislativa. O MDPD fez uma manifestação na estação do Metrô no terminal Tietê, para protestar contra a falta de transportes adaptados e estações de Metrô acessíveis. (Anexo 13) Minha maratona por trabalho continuou, procurei em vários lugares, fiz alguns testes para vagas na USP, que era meu sonho, e consegui classificação no Instituto de Ciências Biomédicas quase no final do ano, ainda tive que esperar acabar a greve para assumir meu posto em 1º de dezembro. Na Prefeitura me chamaram de louco, onde já se viu largar assim um emprego “desses”, mas só pensava em conhecer mais e atuar melhor na minha profissão. Mais responsabilidades e um regime de trabalho de oito horas, pela CLT, almoçava em casa, entrava às 12 e saia às 20 horas. Mais longe, mais despesa de combustível, mas também, mais oportunidades de atualização profissional, possibilidades de conhecimento em informática, que já era minha paixão. Fiz vários cursos lá, li muitos livros de informática na própria biblioteca e tinha os computadores para estudar, praticar e já trabalhar. Apesar do esforço, acumulando várias atividades, apesar dos aborrecimentos, do clima de competição e até animozidade de alguns colegas, foi um trabalho que me deu prazer, senti-me realizador de um bom serviço, sendo reconhecido pelos usuários nos levantamentos bibliográficos, que fazia por computador. Pensava muito sobre os rumos do movimento no Brasil, quais os melhores caminhos, como resolver a questão da auto-sustentação para não ficar dependendo de verbas do governo. Foi um enorme dever para dar conta, tinha um trabalho novo e uma carreira para cuidar, sabia o que deveria fazer, mas quase não tinha tempo, ficava estafado e angustiado com o tamanho da missão e impossibilidade de estar nos locais onde deveria estar para reivindicar os direitos dos deficientes. Em 89, meu trabalho preencheu muito do meu tempo. Tinha que conciliar família, relação sentimental, atividades de militância na ONEDEF e Conselho Estadual, mais MDPD. O Conselho fazia reuniões mensais, o MDPD também e a ONEDEF além das reuniões mensais tinham as viagens, circulares, informações e contatos telefônicos com o Brasil todo. Com ajuda da Lourdes conseguimos emprestado as dependências do Lar Escola São Francisco e realizamos uma reunião do CRE - Conselho de Representantes Estaduais, aqui em São Paulo, num final de semana. O clima era tenso e tivemos que enfrentar descontentamentos pela suspensão da edição do jornal da ONEDEF, o ETAPA, fato que desagradou a Rosângela Bermam, a editora do jornal, e ex-coordenadora da ONEDEF. Não tínhamos recursos e nem registros legais para levantar financiamentos junto ao governo e bancar este projeto. Propusemos continuar com o jornal mantendo tudo, inclusive o nome de órgão informativo da ONEDEF, e a editora poderia vender a publicidade, ficar com todo o lucro, e a distribuição nós nos encarregaríamos. A proposta não foi aceita pela editora sob a alegação que ninguém anuncia em jornal assim. Ora! Nossa decisão foi puramente administrativa, não tinha nada de pessoal, mas quase tudo era levado pelo lado pessoal, teve gente de outro estado que chegou a levantar uma proposta e dizer que dívida se faz e paga-se quando puder. Coisas que não entendia como era possível, pois o discurso era de oposição aos governos, mas as práticas dentro das nossas associações eram iguais! Acredito que nossa atitude foi correta pois até hoje nenhuma coordenação, por falta de recursos, voltou a editar um jornal, mas também não continuaram com a prática de comunicar-se com as entidades membros, nem por meio de circulares informativas das atividades da ONEDEF, e essa é uma crítica que venho fazendo para todos os coordenadores que passaram. Ainda assim tentei editar uma revista, mas um editor daqui que havia topado a proposta de fazer e ficar com a publicidade não conseguiu anunciantes, e como acreditei nele e prometi, tive que fazer uma pequena revista com meus próprios recursos, valendo-me a essa altura de editoração eletrônica da ADUSP- Associação dos Docentes da USP, onde acabei aprendendo bastante. Em maio, a Elza e eu fomos para a cidade do México, Reunião Latino Americana da DPI - Desabled People's International. No mesmo dia que cheguei teve uma reunião à noite, minha cabeça parecia estourar, de tanta dor, pela altitude, pela primeira vez em minha vida dormi em uma reunião, tive que pedir licença e ir dormir. Foram três dias de reuniões, palestras e contatos com representantes de toda América Latina, cada um com suas particularidades, bem diferentes do Brasil, mas muito iguais em sua pobreza e dificuldades. Numa tarde, saímos de carro alugado com Pedro Cruz e Roidée do Uruguai para uma rápida olhada na cidade. Nos outros dias saíamos, na hora do almoço e à noite, por perto do Hotel na região central da cidade que ainda exibia as ruínas do terremoto de 80, deu até para visitar uma grande feira de artesanato. No último dia saímos pelas redondezas e conhecemos uma grande Biblioteca Pública, adaptada e com serviços para deficientes visuais. Nessa viagem não senti dificuldade com o idioma espanhol, lembrei que dos 6 aos 11 anos passava as férias na casa de meus avós maternos no Guarujá, onde também morava tia Ester, que era Argentina, eu a imitava como papagaio, mas o som ficou familiar, tanto que no colegial quando tive que ler em espanhol alguns textos de Filosofia não senti dificuldade, era só ler em voz alta; na faculdade a leitura aumentou e daí em diante sempre tenho leituras ou oportunidade de falar. Voltamos e logo após tive outra viagem para Recife (PE), para o Encontro de Conselhos, Coordenadorias e Entidades Nacionais para discutirmos a Lei 7.853, conhecida como lei da CORDE. Muita discussão e pouco esclarecimento, tudo girava em torno da questão da tutela, diz a ementa da Lei: “Dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional para integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes, e dá outras providências.” << Anterior Próximo >> Página 11 de 15
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